Opinião: Orelhas “couve-flor”

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Como lutador não acho saudável o lance da perda de peso repentina para as lutas de UFC. Com o que concorda, por exemplo, Rorion Grace, o fundador do evento. E as orelhas “couve-flor”, são saudáveis?

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E como tradicional que sou, não me furto a opinar sobre as denominadas “orelhas “couve-flor””, característica cada vez mais presentes nos lutadores de MMA e de jiu-jitsu, tornando-se até mesmo uma marca registrada.

As orelhas “couve-flor” decorre de lesões contínuas e prolongadas causadas pelo atrito desse órgão com o quimono do rival, tatame e, até mesmo, o corpo do oponente. Essas lesões, decorrentes dos atritos, geram hematomas na cartilagem e no pericôndrio (pele que reveste a orelha). Por consequência, criam coágulos e pus que se acumulam na orelha e devido a isso a cartilagem é separada da área responsável pela sua oxigenação e nutrição, que é o pericôndrio, causando a “morte” da cartilagem e a consequente deformação. Assim, com a “morte” da cartilagem original, outra começa a ser criada, o que causa a deformação, surgindo a orelha “couve-flor” ou “repolho”.

Ainda que seja possível evitar a deformidade com a utilização de drenagem dos coágulos, além do fato de que, esse fenômeno, o hematoma auricular (nome técnico da deformação) não ocorra necessariamente nos lutadores, a deformação virou até mesmo desejo dos atletas.

E isso ocorre pelo fato de que, muitos entendem a “orelha couve-flor” como sendo um sinal de virilidade e de força.

Profissionais do ramo demonstram que é comum que lutadores iniciantes fazerem de tudo para alcançar a deformação o mais rápido possível, sendo que alguns até danificam as orelhas de forma proposital. Esses lutadores lançam mão de compressão de faixas ao redor das orelhas e uso de alicates de unhas, dormir com pregador de roupa, como técnicas para a mutilação do órgão.

Parte dos lutadores entendem que, por ser um sinal de virilidade e força, a deformação seria um atrativo para o sexo oposto, além do fato de que, por ser um sinal característico, a orelha de “repolho” causa temor nas pessoas, que facilmente identificam se tratar de um lutador, evitando confusões e assaltos.

Vejam depoimentos dados por lutadores ao site “uol”.

O lutador Felipe Fraim diz já ter se livrado de um assalto:

“Foi uma vez, eu estava perto de casa, esbarraram na minha namorada e eu olhei pra trás, aí os moleques vieram para cima de mim. Mas viram a orelha, ficaram meio assim, aí o outro veio do meu lado e ficou olhando também. Um cutucou o outro, isso eu vi, pediram desculpas e saíram fora. Quem vai mexer com lutador, né? Ninguém é bobo”.

Thomas Almeida disse que as orelhas decorrentes do fenômeno do “repolhismo” atraem as marias-tatame:

“Elas gostam. Acho que impõe respeito, elas gostam de estar do lado de um cara que tem orelha estourada. Elas falam, ‘ai.. deixa eu pegar, ver como é”

Felipe Sertanejo diz que as meninas ficam de olho nas orelhas:

“Tem mulher que fica com o cara por causa da orelhinha. Falar que é lutador é ímã pra maria-tatame”…

A namorada de Felipe, a apresentadora Lucilene Caetanos revela que acha a orelha do namorado charmosa e que transmite a virilidade:

“A do Felipe eu acho bonitinha, eu gosto , ele se cuida, é bacana. Não vejo nenhum problema, passa a identidade do lutador, do trabalho, da profissão que ele escolheu. Passa um pouquinho de respeito. Dá um medinho nas pessoas, as pessoas dão uma olhada, veem que o cara é lutador e acabam respeitando mais”

Particularmente, sou contra essa cultura da “orelha couve-flor”. Sou adepto de que, se ocorrer, ok. Mas, forçar para demonstrar virilidade e força não deve, ou deveria, ser jamais o foco central.

O lutador tem que ter comportamento urbano, saber que seu corpo é uma arma que pode ser letal. Sendo assim, quanto mais for discreto melhor.

O verdadeiro mestre da arte marcial não sente a necessidade de demonstrar virilidade e força, apenas mantém o foco, lutando diariamente para ter o controle da mente.

Isso tudo sem falar no efeito reverso, se um dia em um assalto, o cidadão estiver armado, a desgraça estará feita.

Nada contra quem goste, cada um faz o que bem entender da própria vida e é livre para tomar decisões, mas é importante refletir, pois trata-se de uma retaliação ao próprio corpo que pode causar a discreta perda de audição.

Aurelio Mendes – @amon78