Campeões invisíveis, os desafios dos paratletas

Foto: Rio 2016

Para qualquer visitante da UFPE, uma movimentação à beira do campo do Núcleo de Educação Física, todas as tardes, não passa despercebida: são os paratletas da universidade se preparando para as competições.

 

Certo dia, andando pelo Núcleo de Educação física da UFPE, percebi alguns cadeirantes na área do campo. Não sabia do que se tratava, nem como me aproximar para saber, então segui observando de longe. Com uma curiosidade tipicamente jornalística me aproximei e percebi que se tratava de lançamento – tanto de dardo quanto de disco. Durante dias voltei ao local, no mesmo horário, meio da tarde, 15h talvez.

Eram muitos os que treinavam, o treino por vezes fora exaustivo – conclusão que tirei fazendo a leitura das expressões faciais dos atletas – e após muita observação, falei com um deles, era o Marcos Tomaz. Eu não sabia ao certo o que perguntar, mas ele se apressou em contar sua história, de onde veio, contou sobre sua deficiência, era um cadeirante, paraplégico (o primeiro com quem tivera contato na vida), me falou pouco sobre o esporte e bastante sobre sua vida. Apenas obtive a informação de que a UFPE tinha um grupo que treinava pessoas deficientes físicas.

Segui fazendo contatos no núcleo e soube que a Universidade tinha campeões do paradesporto, não sabia de qual modalidade e o curto tempo para exercer às diversas obrigações acadêmicas não me permitiam saber mais. Porém às mesmas atividades acadêmicas me colocaram de volta ao local e ao treino dos atletas. Eu precisava de duas matérias, para duas disciplinas distintas, que seriam sobre dois assuntos que em nada se encontram. Um deles era sobre como o estado de Pernambuco se preparava para os Jogos Paralímpicos de 2020. Fiquei responsável por obter informações sobre preparação de treinadores e atletas, foi fácil, afinal eu conhecia o Núcleo de Educação física e os horários de treino. Eles poderiam me ajudar. E é justamente aí que fui surpreendida.

Como o título diz, essa reportagem é sobre campeões e eu poderia começar contando que fui em busca desses atletas especificamente, poderia dizer que foi difícil encontrá-los, que estavam indisponíveis a falar com uma mera estudante de jornalismo, mas não foi.

 

Os campeões

Era tarde de uma terça-feira tipicamente pernambucana: com muito calor. Cheguei no gramado da UFPE, no meio do treino, sem saber o que fazer. Procurei o professor responsável, mas quem estava dando o treino era Aílton, um estagiário, e o staff da equipe. Expliquei do que se tratava a reportagem, eles se disponibilizaram a responder minhas perguntas, autorizaram a conversa com os atletas, mas logo me informaram que eu poderia ter problema para conseguir foto ou declaração com um deles, pois era atleta patrocinado por empresas privadas. Fiquei surpresa, pois desconhecia a presença de um atleta ilustre naquele momento. Me afastei do grande grupo e fui de encontro a única mulher que treinava. Não sabia como abordá-la – a deficiência é algo com que nós não estamos preparados para lidar, não sabemos lidar. Então fui “desarmada”, pronta para cometer algum deslize e assim aprender com o erro. Não sabia quem era ela, não a conhecia, mas quando me viu em sua direção, sorriu. Retribuí o sorriso e, atrapalhada, pedi para fazer uma foto. Ela perguntou se eu queria que ela simulasse o lançamento de seu disco. Eu não tinha certeza, mas disse que sim. Fiz a foto e perguntei se após o treino poderíamos conversar. “Com certeza!”, foi a resposta que obtive.

Ao final do treino a mãe veio auxiliar na locomoção, ficamos à sombra de uma árvore há poucos metros de onde o pessoal seguia treinando. Seu nome é Leylane de Castro e tem 22 anos. Ela me conta que é de Gravatá e que todos os dias vem para Recife treinar, há dois anos. Sem hesitação, afirma que sua deficiência é resultado de uma parada cardiorrespiratória que sofreu aos 14 anos.

Leylane faz acompanhamento fisioterápico na Universidade Católica de Pernambuco e afirma que só foi treinar na Federal após sua fisioterapeuta informar sobre a existência das atividades. Sobre o início da carreira esportiva, ela conta “Comecei a treinar bocha aqui na UFPE, mas eu tinha muita força, daí fui transferida para o atletismo. Hoje treino dardo, disco e peso.”

Ela continua “Além do local de treino, a UFPE só oferece fisioterapia e psicólogo”. Em meio a esta fala, Simone, mãe da Leylane, interrompe para informar que apenas recebem o acompanhamento psicológico.

Seguimos conversando sobre assuntos que fiz respeito ao seu tratamento fisioterápico, quando finalmente pergunto sobre a importância do projeto na vida dela e é aí que sou surpreendida:

“É de muita importância, importância grandiosa, porque no meu primeiro regional bati o recorde (recorde nacional), no nacional bati meu próprio recorde.”. Surpresa, questiono se ela era a campeã nacional e ela volta a me responder “Sim, sou a número um da classe F33, com o recorde de 4,55m” e finaliza “Todo dia que eu venho para cá é uma experiência, porque sair de Gravatá todo dia é uma aventura.”

(Leylane de Castro, campeã brasileira da categoria F33)
(Leylane de Castro, campeã brasileira da categoria F33)

 

 

 

 

 

 

 

Em conversa com a Srª Simone, mãe da atleta, sou informada de que se a prefeitura da cidade em que elas vivem souber que a vinda à Recife é principalmente para treinos, o transporte pode ser suspenso – pois é exclusivo para tratamento fora do domicílio. Ela ainda me informa que a UFPE não arca com nenhuma despesa de viagem – mesmo a atleta sendo campeã com o nome da Universidade – e que ela ainda não é patrocinada, nem recebe os auxílios para atletas que os Governos Federal e Estadual oferecem, que há promessa para começar a receber na metade desse ano, mas que até então todas as despesas com viagens e competições vem das finanças da família.

Ainda em conversa com a Srª Simone, sou informada de que uma participante das Paralímpiadas e terceiro lugar mundial, Ana Cláudia, mora na mesma casa que a Leylane e que estaria chegando à UFPE (local de onde também é atleta). Aguardei sua chegada, que humildemente apresentou-se e aceitou conversar.

Ana Cláudia Maria tem 29 anos, é natural de Recife, mas hoje reside em Gravatá.

(Ana Cláudia. Reprodução/facebook oficial)
(Ana Cláudia. Reprodução/facebook oficial)

Ana revela que aos 6 anos sofreu uma queda, que afetou o fêmur e como sequela ficou uma perna mais curta que a outra. Ela treina há dois anos, o dia todo e não estuda, mas pretende fazer faculdade assim que possível. Suas modalidades são os 100m rasos e salto em distância na categoria T42. E informa que seu professor de educação física quem falou do projeto da Universidade Federal de Pernambuco.

 

 

 

 

 

Como atleta olímpica, ela afirma “minha rotina é de treinos, fisioterapia e psicólogo, isso quando não estou na Seleção, pois lá tenho todos os acompanhamentos possíveis.” Falando suas conquistas ela ostenta “tenho recorde brasileiro e das Américas, sou a primeira do ranking brasileiro e quarta do ranking mundial nos 100m rasos e salto em distância. Participei de regionais, open, além do mundial que foi realizado no Catar”.

Ana é a principal paratleta da UFPE, mas a instituição também não custeia nenhuma de suas despesas. Pela maior visibilidade e projeção no esporte, ela conseguiu patrocínios de empresas privadas e recebe a bolsa atleta do Governo Federal.

Nesse meio de conversa deu-se o fim do treino, só restavam os atletas masculinos. Eles tinham pressa, cansaço, mas falaram comigo rapidamente. O grupo informou que treinam de Segunda a Sexta, sempre pela tarde e confirmaram que a UFPE só oferece o local de treino e suporto psicológico, que acontece nas Quintas-feiras.

Descontraídos, eles me informam que o Sandro poderia me tirar todas as dúvidas, pois é referência. Fotografei-os e agradeci, antes de partir para a entrevista com nosso terceiro campeão.

Atletas do paratletismo UFPE.
Atletas do paratletismo UFPE.

 

 

 

 

 

 

O Sandro Varelo realmente foi minha surpresa. Em meio ao treino, ele se portou sério, concentrado, inconscientemente fiquei assustada com sua feição cerrada, mas no momento de nossa conversa se mostrou disposto e disponível.

Sandro tem 34 anos e carrega a marca de pentacampeonato brasileiro, seis recordes pan-americanos e seis campeonatos estaduais, além de ter sido um dos carregadores da Tocha Olímpica em sua cidade, Igarassu. O atleta me contou sobre as dificuldades que teve em carregar a tocha, já que o colocaram para fazer o trajeto de descida, numa ladeira de paralelepípedo em péssimas condições de acessibilidade e se divertiu lembrando que além de descer a ladeira e driblar os buracos, ainda teve que desviar do fogo da tocha, que o vento colocava em direção de seu corpo.

Sandro relembra o início do trajeto esportivo:

“Comecei a treinar aqui mesmo. Cheguei com 135kg, minha patologia desenvolvida para tetraplegia e ao decorrer do treinamento ganhei condicionamento físico e hoje tenho meus méritos, conquistados em cinco anos.”

Ele conta que sua deficiência foi resultado de um tiro de arma de fogo, que recebeu após sofrer um assalto. Explica “levei um tiro na T12 L1, fiquei paraplégico e perdi o movimento no meu braço esquerdo.” e completa “a primeira vez que vim pra cá, foi na ambulância do SAMU, pois o psicólogo do Hospital da Restauração me recomendou. Chegando conheci o Professor Luizinho, que me indicou para a natação, mas logo viu que eu não levava jeito por causa do meu porte físico e me colocou pro atletismo. O esporte me deu uma segunda vida. Não fosse ele, eu não seria quem sou hoje.”

Entre conversas, ele me revela as condições para o recebimento das bolsas ofertadas pelos Governos Federal e Estadual:

“Para ganhar a bolsa Federal e Estadual você tem que estar entre os três primeiros do Brasil e graças a Deus eu estou. Mas além deles, sou patrocinado pela prefeitura de Igarassu e por empresas privadas.”

Sandro poderia ter sido mais um representante da UFPE nas Paralimpíadas de 2016, mas devido a uma união de classes ele acabou desfavorecido. A união deu-se entre paraplégicos e amputados inferiores (que possuem domínio de tronco). Ela revela que desde 2016 vem treinando para 2020, se adequando às novas regras “eu acredito e sonho que vou conseguir!”

Alguém duvida?

O especialista

Entrei em contato com o fisioterapeuta Randy Marcos, que é classificador funcional no Comitê Paralímpico Internacional e no Comitê Paralímpico Brasileiro e obtive as seguintes afirmações:

“O esporte é de suma importância para o deficiente para aumentar a intensidade da reabilitação, estimulando ainda mais todo o sistema muscoesquelético, bem como a fisiologia de todos os sistemas. Logicamente atletas com deficiência precisam de mais atenção, pois a deficiência em si gera desequilíbrios posturais e funcionais, que precisam estar sempre sendo corrigidos.

O acesso ao esporte é animador, pois eles se veem que conseguem praticar um esporte, uma atividade como os demais colegas. Provando pra sociedade que eles não são inúteis, como muitos os rotulam. Já as sessões de fisioterapia, por exemplo, vão variar de acordo com a necessidade do atleta, não tendo que ser semanalmente, como em alguns casos.

As condições que algumas cidades oferecem não são as melhores. Nós temos uma deficiência muito grande com relação ao nível de atletas de elite. Aí fica difícil para os atletas.”

Visibilidade

O ano de 2016 foi marcado pela 31ª (trigésima primeira) edição dos Jogos Olímpicos, que foram realizados no Rio de Janeiro. Com uma cobertura jamais vista pelos brasileiros, emissoras dividiram-se e multiplicaram-se para que nenhum detalhe do evento passasse desapercebido. Estavam lá em cada pódio, derrota, classificação, polêmica, tira-teima; tudo para que nós, espectadores, pudéssemos sentir o clima e emoção de sediar um evento tão importante. Em cerca de 17 dias – tempo que ocorreu os jogos – a TV brasileira parou, pautando quase que unicamente o Rio de Janeiro e os atletas que por lá passaram. Mas e depois? Depois a TV seguiu seu fluxo costumeiro: corrupção voltou a ser pauta principal, o Campeonato Brasileiro de futebol – já na metade – recuperou seu espaço, a vida do brasileiro consumidor de entretenimento voltou ao comum.

Paralelo à volta da rotina aconteciam os Jogos Paralímpicos, que em sua 15ª (décima quinta) edição, realizada no Brasil, sofreu com o descaso da grande mídia, sendo transmitidos somente por uma emissora de TV aberta, a TV Brasil. Foram 14 ouros, 29 pratas, 29 bronzes e um oitavo lugar no quadro geral de medalhas simplesmente esquecidos, omitidos, pouco noticiados. Ainda hoje não sabemos quem são estes campeões, estes atletas e medalhistas. Não sabemos suas histórias, seus talentos – além do esporte –, o que fazem, onde vivem, de onde vêm, suas barreiras, seus patrocínios, apoios – o mínimo que é noticiado de qualquer atleta que não seja deficiente. Eles seguem como anônimos, levando o nome do Brasil para o mundo, mesmo não tendo seus nomes conhecidos ou condições dignas de treino e trabalho.

Se as Paralímpiadas que é somente o evento mais importante dos desportos para pessoas com deficiência, passou desapercebida por boa parte da população, o que falar da visibilidade de competições regionais, nacionais, estaduais, além de sulamericano, mundial e o Parapan-Americano?

Até quando teremos campeões invisíveis?