Esquiva Falcão revela que ‘abriu mão’ do convívio com filha recém-nascida por título

Reprodução/Facebook oficial Esquiva Falcão
Reprodução/Facebook oficial Esquiva Falcão

Ser um atleta de alto alto rendimento no Brasil não é fácil. E quando o esporte não é o futebol, a missão é ainda mais árdua. Foi por isso que Esquiva Falcão, medalhista de prata no boxe nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, vive nos Estados Unidos há dois anos. E a gana para ser campeão mundial é tão grande que o pugilista abriu mão do convívio da esposa e dos filhos.

Em entrevista exclusiva ao Torcedores.com, Esquiva, que completa 27 anos nesta segunda-feira (12), fala da experiência de morar sozinho em Las Vegas e como faz para conciliar os treinos com a relação familiar.

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O boxeador, de fato, teve de fazer sacrifícios. Em agosto deste ano, nasceu Luisa, a caçula dos três filhos de Esquiva Falcão – ele também é pai de Erick, 5 anos, fruto do primeiro casamento e que vive em São Paulo, e Juan, de 3, do relacionamento atual. E os resultados no ringue mostram que a escolha foi acerta do ponto de vista esportivo para o atleta que compete na divisão dos médios (até 72,5 kg).

No último dia 2 de dezembro, Esquiva derrotou o portorriquenho Luis Hernandez por decisão unânime. Foi a 16ª vitória do capixaba de Serra em 16 combates e apenas o quarto que terminou sem o rival beijando a lona. E, ao que tudo indica, em 2017 Esquiva Falcão estará pela primeira vez atuando como profissional no Brasil.

Confira os principais trechos da entrevista com Esquiva Falcão:

Torcedores.com: O que levou você e tua esposa a decidirem morar separados neste momento?
Esquiva Falcão: A gente pensou em ter a filha nos Estados Unidos, só que não iria ter ninguém para ficar com a minha esposa, ajudar. A mãe dela, o pai dela, minha mãe, meu pai tentaram tirar o visto para vir mas não conseguirem. Eu viajo muito, treino muito e não tenho tempo para ficar com ela. Esse tempo de gestação é muito chato, a mulher precisa de atenção. Então resolvemos que ela iria para o Brasil, em Serra, no Espírito Santo, onde teria o apoio da família e atenção. Aqui para mim a estrutura é melhor. Em janeiro ou fevereiro eles estarão de volta.

Por conta da diferença do fuso horário (Las Vegas está 6h atrás do horário de Brasília) como vocês fazem para se falar?Aqui em Las Vegas eu durmo muito cedo. Por volta das 21h eu já estou na cama, querendo dormir. Minha esposa dorme sempre 1h, 2h. E sempre falo para ela descansar, porque com duas crianças não é fácil. A gente sempre se fala de manhã ou nesse horário (20h30 no Brasil, 14h30 em Las Vegas). Eu acordo sempre às 6h.

Como é para você ficar longe da filha neste momento?
É muito difícil. Às vezes eu choro na câmera, a saudade é muito grande. É um momento especial estar ao lado da filha. Eu saí do Brasil e ela tinha menos de um mês, então não consegui curtir muito com ela. É difícil, uma barra. Tem meu outro filho, o Juan, que também sou apaixonado… Mas para ser campeão eu tenho de passar por isso, sofrer. Não é só alegria. Tem momentos difíceis e tenho de ultrapassar essa barreira.

Antes do nascimento da Luisa, tua família já havia morado com você em Las Vegas? A adaptação foi difícil?
Eu morei sozinho o primeiro ano, 2014, porque vim para saber como era, o tempo, vim para arrumar a casa antes de trazer a família. Em 2015 eles vieram e, em 2016, voltei a ficar sozinho. No início, a adaptação para a família foi bastante difícil. O clima é muito seco, mas depois se acostumou e ficou tranquilo.

E como o Esquiva Falcão se defende tão bem na cozinha quanto nos ringues?
Sou eu que faço minha comida, tudo. Me viro aqui sozinho, mas ela (esposa) me ajuda bastante. Falo com ela quase 24h pela internet, pelo Facetime. E aí ela me dá as dicas de cozinha. Estou até virando um bom cozinheiro (risos). No início até fiz bastante miojo, mas aí vi que não estava rendendo (risos). Ela me ajudou muito e estou até gostando de morar sozinho (risos). Faço fricassê, uma costela… Quando estou tirando peso, como muito frango, então faço frango ao queijo, cozido… Quando estou focado para a luta, o treinador manda cuidar do peso, então procuro comer mais frango e saladas, para não exagerar e não sofrer muito nos treinamentos. Eu controlo bastante.

Se você tivesse ficado no Brasil, teria conseguido viver do boxe profissional? Dá para ser boxeador profissional no Brasil ou tem de sair?
Não, jamais. A primeira coisa depois da prata nos Jogos Olímpicos foi assinar com uma empresa americana e sair do Brasil para treinar, ganhar um dinheiro bom para sustentar minha família e ter minhas coisas. Se eu tivesse ficado no Brasil, seria muito difícil, eu teria de fazer milhares de palestras, dar aula em academia. Conheço muitos lutadores bons, talentosos, que dão aula. Teria de ir em escolas para ganhar dinheiro, ter um projeto… Eu não estaria focado somente no boxe profissional, estaria focado em outras atividades para poder me manter. No boxe profissional tudo conta. Uma equipe boa, um treinador bom. É triste falar isso, mas no Brasil é muito difícil que um atleta viva do boxe. O Brasil está em situação precária de boxe e eu quero mudar isso. Se eu for campeão, tenho certeza que abrirão muitas portas para o Brasil.

Em novembro de 2013 você assinou contrato com a Top Rank, que é uma das maiores equipes de boxe profissional nos EUA. Como é a relação com a Top Rank e o Bob Arum? Você é muito cobrado por resultados?
É muito boa. Eles sempre me cumprimentam, dão risada, falam bem do Brasil, dizem que sou a nova cara do Brasil e isso é muito legal, porque eles confiam em mim, acreditam no meu trabalho e veem que estou evoluindo a cada luta. E sempre pergunto quando vou disputar o cinturão, lutar no Brasil… e eles me respondem muito bem. Nossa amizade é muito legal, é mais do que trabalho. E toda a coletiva de imprensa que o Bob Arum faz ele se lembra e fala de mim. É uma coisa boa. Tenho certeza que ele tem um grande plano para o futuro, fazer eventos, um campeão no Brasil e investir mais no país.

E agora o Robson Conceição, medalha de ouro no Rio-2016, também está na Top Rank. Vocês se conhecem? Rola um “ciúme” de ele ser o novo brasileiro número 1 na equipe em vez de o Esquiva Falcão?
Que nada! Somos muito amigos, conheço ele há mais de cinco anos, trabalhamos juntos na seleção olímpica. Fiquei muito feliz pela medalha dele e mais feliz ainda por estarmos na mesma equipe. Isso soma muito, porque dois atletas grandes, medalhistas olímpicos, na mesma equipe, é muito legal. A Top Rank agora tem dois brasileiros e pode fazer lutas no Brasil porque sabe que tem produto para isso. Estou muito feliz por ele, fiquei uma semana com ele aqui (nos Estados Unidos). E não tem rivalidade porque ele é de uma categoria de peso abaixo que a minha. Se ele for campeão do mundo primeiro que eu ou vice-versa, vai somar para nós dois e para o boxe brasileiro.

Bate uma frustração em você por não ter sido medalha de ouro nos Jogos de Londres?
Na verdade, não. Foi uma medalha histórica. Para mim, minha prata vale ouro. Se eu ganhasse um ouro, acho que não teria tanta repercussão no Brasil com a prata, por causa da polêmica que teve (Esquiva perdeu um ponto de forma polêmica e o ouro ficou com o japonês Ryota Murata). Acho que todo mundo viu que fui ouro, mas, por um detalhe, me tiraram. O ouro não teria tanta repercussão. Coloco o Robson como exemplo. Eu vejo na internet, pesquiso muito, e parece que a repercussão da medalha de ouro dele não teve a mesma repercussão que a minha. A minha viralizou muito por causa da polêmica do árbitro. Para mim, é ouro e não me arrependo.

Dá vontade de voltar para a Olimpíada, já que os profissionais estão liberados para lutar? Tem planos para lutar em Tóquio-2020?
Depois dos Jogos Olímpicos conversei com meu pai e ele disse que seria bom eu lutar em Tóquio porque eu estaria mais forte, mais experiente. Disse: “vamos ver”. Mas agora, acho melhor não. Tenho o foco de ser campeão do mundo e isso vai acontecer dentro de dois anos. E aí vou querer manter o cinturão, lutar pelo cinturão. Olimpíadas, para mim, é algo que passou. Consegui a medalha e Tóquio, para mim, não vai dar.

Mas não dá para ser campeão mundial e campeão olímpico?
Dá, tem como conciliar as duas coisas. Mas são esportes completamente diferentes, com regras diferentes, o estilo de luta muito. Nos Jogos Olímpicos eu corro o risco de uma derrota, sujar o meu nome para tentar uma coisa que já consegui. É melhor eu ficar no boxe profissional, onde estou bem e, em breve, ter o cinturão. Meu objetivo é fazer história no boxe profissional. No boxe olímpico já fiz história.

Hoje você tem 16 vitórias em 16 lutas e já se comenta que você poderá lutar pelo título. Quando será?
Muita gente me pergunta isso, me falam que estou bem, e um dia fui perguntar ao meu treinador e à minha equipe. E eles falaram que, dentro de, no máximo, dois anos, eu estarei disputando o cinturão. Estarei com 19 ou 20 lutas e, se tudo der certo, vou disputar o cinturão. Acredito que até 2018 vou disputar e vou estar pronto para ganhar. Espero por este momento faz tempo.

É verdade que Esquiva Falcão lutará no Brasil no ano que vem?
Sim. A Top Rank quer fazer o primeiro evento dela no Brasil. Ainda não há local e adversário definidos. É provável que seja no dia 12 de março. Estou ansioso, quero muito lutar no Brasil e quero dar o gostinho da vitória para a torcida brasileira.

Você planeja uma mudança para o MMA?
Meus fãs me perguntam muito isso nas redes sociais. E a resposta é “não”. Não penso, em nenhum momento pensei em lutar MMA. Tenho uma carreira muito sólida no boxe profissional, minha vida toda foi no boxe, tudo o que eu tenho é graças ao boxe, minha família está bem graças ao boxe. Gosto de assistir MMA, não sou fanático, mas gosto. E não dá para mim. Acho que eu teria uma grande vantagem, porque a luta começa em pé. Esse irlandês, o Conor McGregor, termina logo as lutas porque começa em pé. Não é meu sonho e não está nos meus planos.

Hoje quem você gostaria de enfrentar?
Gostaria de enfrentar o campeão do mundo logo. Tem uns quatro campeões na minha categoria: o Triplo G (Gennady Golovkin), que é um atleta muito duro que deve se aposentar em dois anos. Ele seria um adversário bom, mas não queria enfrentá-lo agora. Vamos para a Inglaterra, tem o Billy Joe (Saunders, campeão da Organização Mundial de Boxe). Acho que ele seria, para hoje, a luta ideal. E também a Organização Mundial de Boxe tem o cinturão mais bonito do que o das outras (risos).

Você gostaria que seus filhos virassem profissionais no boxe ou prefere outra carreira?
Eu não sei… Tudo vai depender deles. Se eles quiserem lutar, vou aconselhar, falar “olha, o boxe é muito difícil. Eu consegui, mas sofri muito, fiquei longe da família. Tem de abrir mão de muitas coisas, como eu abri”. Mas, se quiserem lutar, vou ficar feliz, é o mesmo destino do pai. Se não quiserem, também vou ficar feliz e vou apoiar qualquer decisão deles.



Jornalista, editor do Torcedores.com. Passagens pelos jornais Metro, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Marca Brasil, Agora São Paulo, Diário de S. Paulo e Diário do Grande ABC.