Bullying quase fez com que Esquiva Falcão trocasse de nome para Bruno

Reprodução/Facebook oficial Esquiva Falcão
Reprodução/Facebook oficial Esquiva Falcão

Esquiva Falcão sabe melhor do que ninguém que o nome que carrega na certidão de nascimento é, no mínimo, incomum. Mais do que isso: é único no mundo, segundo ele mesmo conta. E o que pouca gente talvez saibe é que o boxeador quase mudou de nome para Bruno. O motivo? As ‘zoeiras’ dos amigos.

“Fui muito, muito zoado e até pensei em trocar de nome quando era mais nome. Falava para o meu pai: ‘Pai, quando eu crescer eu quero trocar meu nome’. Queria mudar para Bruno, porque era um nome comum, que todo mundo tinha”, contou Esquiva em entrevista exclusiva ao Torcedores.com.

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Mas quis o destino que Esquiva seguisse os passos do pai, Adegard Camara Florentino, mais conhecido como Touro Moreno (ao lado de Esquiva na foto), e se tornasse um pugilista. E, convenhamos: nome melhor para um boxeador do que “Esquiva”, dificilmente haverá.

Com a ajuda do nome e dos punhos, Esquiva trilhou seu caminho na nobre arte. Treinou em São Paulo, no Rio de Janeiro e conquistou, em 2012, a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Londres. No fim de 2013 se profissionalizou (ele é da equipe Top Rank, uma das maiores dos Estados Unidos) e, desde então, acumulou vitórias: em 16 combates profissionais, está invicto. O último triunfo aconteceu no dia 2 de dezembro sobre o portorriquenho Luis Hernandez.

Confira a entrevista do Torcedores.com com Esquiva Falcão, que completou 27 anos na última segunda-feira (12):

Torcedores.com: Você vem de vitória sobre Luis Hernadez. O que costuma fazer após as lutas?
Esquiva Falcão: Ah, tem que passear, desestressar um pouco do treinamento (risos). Às vezes só o treinamento atrapalha. No domingo eu saio e às vezes depois de uma luta eu tiro uma semana para descansar. Vou nos cassinos, tiro fotos, mas não jogo porque não gosto.

Seu nome não é algo comum. E acho que você nunca conheceu outro Esquiva…
(Risos) Outro dia vi um site na internet sobre nomes. Algo como ‘saiba quantos Pedros tem no mundo’. Daí fui ver quantos Esquivas tinha no mundo e não tinha nenhum. Sou único! (risos). Não posso nem colocar a culpa se eu fizer algo errado (rindo).

Quando você era criança você sofria muito bullying?
Eu era muito zoado. Tinha 14, 15 anos e, quando estudava, tinha uns amigos mais velhos, de uns 20 anos, e eles não podiam me ver e gritavam lá de longe “Esquiva, Esquiva”. Um dia, fui paquerar uma menina e eles gritaram isso, para eu me esquivar da menina. Fui muito, muito zoado e até pensei em trocar de nome quando era mais nome. Falava para o meu pai: “Pai, quando eu crescer eu quero trocar meu nome”. Queria mudar para Bruno, porque era um nome comum, que todo mundo tinha. Mas Deus escreve certo por linhas tortas. As coisas começaram a se encaixar, fui dando certo no boxe e o nome pegou. É um nome muito forte, que a pessoa grava, é nome de boxeador. Acostumei e hoje as pessoas não me zoam mais. Não sei se é por medo, porque hoje eu cresci, ou se gostam do meu nome (risos). Hoje eu gosto, me amarro no meu nome (risos).

Como faz para explicar o significado do nome para os americanos?
Vários já me perguntaram se é um nome comum. Daí explico que não, faço gestos da esquiva e eles dão risada, falam “ainda bem que você fez boxe!”. Explico tudo, a história do meu pai… Eles gostam, é muito legal.

E você está falando bem inglês?
Falo nada. A minha equipe toda aqui é de mexicanos, argentinos… E eles só falam espanhol comigo em vez de me ajudar no inglês (risos). Assim, se eu for em algum lugar, me viro, sei algumas palavrinhas, entendo algumas coisas, termos de boxe… Eu entendo, mas falar, assim, bem mesmo, eu não sei. É muito difícil. No começo, estava estudando bastante, mas agora não dá muito mais tempo. Treino seis vezes por semana, seis horas de treinamento, então, o tempo livre que tenho é para descansar. Estudo mais pela internet, vejo algumas coisas que me ajudam.

Como você vê essa questão do inglês para o futuro, para abrir portas, entrevistas…?
Quando vou dar uma entrevista em inglês, uso um tradutor, meu treinador traduz para mim. É algo diferente. É melhor falar o inglês, o fã quer te ouvir, não quer ouvir um tradutor, querem ouvir da tua boca. Mais para a frente, quero estudar, focar mais no inglês. É que agora eu luto muito, cinco a vezes no ano. Mas quando diminuir o ritmo, vou me dedicar. Preciso conquistar não só o fã do Brasil, mas o fã do mundo todo. Espanhol também preciso melhorar, mas já falo tranquilo e dou entrevista bem.

Seu irmão Yamaguchi também é boxeador profissional. Vocês treinam juntos?
Somos da mesma categoria, mas ele teve um ano que veio para morar nos Estados Unidos, mas em Los Angeles. Ele ficou uns três, quatro meses treinando e voltou para o Brasil, no Espírito Santo. Não sei o que aconteceu. Eu queria muito que ele viesse para cá para treinar comigo. Nós sempre treinamos juntos e tivemos a companhia um do outro, seria muito legal se isso acontecesse.

Nunca teve oportunidade para isso?
Não, até porque ele é de uma equipe diferente, “rival”. Ele é da Golden Boy e eu, da Top Rank, que são as duas maiores dos Estados Unidos. A equipe toda dele é de Los Angeles, a minha, em Las Vegas. Fica meio difícil, na contramão.

Equipes rivais, irmãos… isso faz um prato cheio para um duelo. Vocês se enfrentariam?
Olha… seria uma boa luta. Acho que seria uma guerra de irmãos, mas a gente não quer, minha mãe não quer. Meu pai até quer, ele gosta (risos). Mas minha mãe já disse que não quer que a gente lute. Nem pelo cinturão a gente lutaria. O boxe tem quatro organizações importantes, eu poderia ganhar duas, ele duas e fica tudo em casa. Tem cinturão para todo mundo.

Teu pai sempre colocou você no caminho do boxe, mas você teria escolha se quisesse fazer outra coisa?
Ah, sim, eu teria escolha, tanto que tenho dois irmãos que hoje jogam futebol no Espírito Santo. Teve um período que pensei em parar e meu pai disse para eu estudar, me formar em algo que eu gostasse. Meu pai sempre nos apoiou em nossas escolhas.

Como foi o início no boxe?
Foi difícil. Fiquei seis meses parado no início da carreira, não queria lutar. Fui para São Paulo e disputei dois campeonatos, o Forja de Campeões e o Luvas de Ouro. Fui campeão da Forja (em 2006). Teve uma luta, uma semifinal de torneio, em que eu estava em cima do ringue, com luvas e tudo. Tinha 16 anos, mas só podia lutar a partir dos 18. Descobriram e me mandaram de volta para o Espírito Santo, mas eu já estava fazendo história menor de idade. ganhando de todo mundo. Daí voltei e fiquei parado por seis, sete meses, porque no Espírito Santo não tem boxe.

Mas em São Paulo conheci um cara chamado Raff Giglio, que era do Vidigal (Rio de Janeiro). Um dia ele me ligou, perguntando se eu queria conhecer o Rio de Janeiro e o projeto dele. E eu queria ir para o Rio não para conhecer a academia dele, mas porque eu gostava de funk! E ele falou que tudo bem, que eu podia sair, mas que eu teria de treinar. Ele me colocou para dormir em um quartinho da academia dele. Minha cama eram os colchonetes da academia. Eu cobria e fazia minha cama. Fiquei quase dois anos morando nesse quartinho.
No final de semana eu ia na matinê. Mas, depois de um tempo, acabei desgostando. E todo dia eu levantava, abria a porta do quartinho e a primeira coisa que eu via era a academia me esperando. E eu ia lá, trienava, via muitos vídeos do Mike Tyson. Passei a treinar mais e isso foi uma motivação. Fui campeão brasileiro representando o Rio de Janeiro e fui parar na seleção brasileira, o que alavancou de vez a minha carreira.

Quem é teu ídolo no esporte e no boxe?
Primeiramente, meu pai. Ele é tudo. Mas, se for falar ídolo mesmo, no esporte, o melhor boxeador é o Mike Tyson. Gosto muito do estilo agressivo, ‘pegador’ dele. Marcou muito a minha infância, meu pai falava muito dele e disse que queria que eu fosse um Mike Tyson da vida. Um repórter disse para meu pai, quando eu nasci, que eu tinha a cara do Mike Tyson. Atualmente, eu gosto muito do Manny Pacquiao, porque ele é canhoto como eu e tem aquele estilo agressivo, muito rápido. E isso me conquista muito, meus olhos brilhos quando veem ele lutar.

E você é canhoto para tudo?
Pior que não! Sou destro para tudo, só para o boxe que sou canhoto. Quando era mais novo, eu lutava com as duas bases. Mas um dia, meu treinador da época, o Ivan de Oliveira, filho do Servílio, me aconselhou a escolher uma base só. Eu tinha 16 anos e defini que usaria a base de canhoto, porque era o estilo que eu gostava mais. E é muito mais difícil encontrar um sparring canhoto do que um destro. Eu tenho 10 atletas que podem me ajudar como destro, mas um ou dois como canhoto. E eu como sou um ‘canhoto falsificado’, tenho a mão da frente mais forte, o que não é algo normal em um canhoto natural. O jab entra com a força de um direto.

O Anderson Silva, ex-campeão do UFC, é exatamente assim…
Não sabia. É o que dizem, tudo é um detalhe. Um detalhe muda muitas coisas, faz você ser campeão do mundo.



Jornalista, editor do Torcedores.com. Passagens pelos jornais Metro, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Marca Brasil, Agora São Paulo, Diário de S. Paulo e Diário do Grande ABC.