2016: O ANO DAS MULHERES NO FUTEBOL BRASILEIRO?

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Fonte: Marco Galvão/Fotoarena/Estadão Conteúdo; Jefferson Bernardes/AFP; Divulgação/CBF.

2016, o ano em que o Brasil foi encarregado de receber o evento esportivo mais importante do mundo pela primeira vez, foi também o ano em que as mulheres tiveram sua maior participação olímpica, representando 45% dos atletas. Ao mesmo tempo, foi o ano em que os preconceitos sobre o lugar das mulheres no esporte encerraram grandes revezes. Quais foram as consequências desses acontecimentos na participação feminina no futebol brasileiro?

2016 se iniciou com uma grande responsabilidade para os esportistas de todo o mundo, em especial do Brasil: um ano olímpico é recebido com muita expectativa, ainda mais para aqueles que serão os anfitriões da festa. Logo que começaram os jogos, a seleção de futebol feminino brasileira roubou a cena com grandes vitórias, fazendo muitos gols e virando a queridinha da população. Será que este seria o ano em que finalmente o ouro viria?

O público lotou o estádio. Assistiu a grandes jogos, comprou camisetas de Marta e Formiga, que se multiplicaram nas arquibancadas. As atletas tiveram o tão esperado espaço midiático, reconhecimento e valorização frente aos torcedores brasileiros. Mas, a medalha não veio. Nem de ouro, nem prata, nem bronze, nem nada. E junto com a medalha que escapou das nossas mãos, também escaparam a mídia, o apoio e novos investimentos. Os rumos do futebol feminino no Brasil ficaram incertos.

Mas, após as incertezas pós-olímpicas, uma sobrevida foi dada à modalidade: a contratação de Emily Lima. Ela se tornou a primeira mulher a comandar a seleção, e, conhecedora das categorias de base e de equipes femininas brasileiras, permitiu que muitas expectativas fossem criadas a respeito de uma nova forma de jogar.

Outra decisão permitiu grande visibilidade ao futebol profissional feminino, a tradicional premiação da Bola de Prata no futebol brasileiro deu espaço às mulheres pela primeira vez: Formiga foi a ganhadora da bola de prata do ano 2016. Ainda, neste final de ano, assistimos à craque Marta mais uma vez concorrer à maior premiação de futebol mundial, a bola de ouro.

2016 poderia ter terminado assim: as mulheres ampliando sua participação e seu reconhecimento no esporte, espaço que costuma ser o esboço das masculinidades. Mas, o ano não havia ainda acabado…

Em meio às tragédias ocorridas no futebol nacional, o Gremio Foot-Ball Porto Alegrense masculino enfim conquistava novamente o título de campeão da Copa do Brasil 2016. Com muita luta, um time aguerrido e bem treinado chegava a um lugar de destaque no cenário nacional. E lá estava Carol Portaluppi, a filha de Renato Gaucho, que, de seu anonimato, passou a ser tratada como amuleto. E isso não se devia ao fato de sua compreensão sobre futebol, ao seu apoio à equipe e a sua vasta experiência com o esporte. Esse título vinha principalmente pela sua beleza. Este foi o lugar dado à mulher no título recém-conquistado: belas acompanhantes.

E dezembro termina com mais um torneio (Torneio de Manaus) jogado brilhantemente pela seleção de futebol feminino brasileira, que vai passando com facilidade pelas adversárias e agradando a torcida com goleadas. Mas essa felicidade foi interrompida pela manchete do Jornal Amazonense, com a infeliz capa: “As meninas dão de quatro” ao falar da vitória brasileira de 4 a 0 sobre a seleção russa. Novamente nossas atletas que lutam, batalham, ganham prêmios, são sexualizadas e tratadas como acompanhantes mais uma vez.

Esse foi o contraditório ano de 2016 para as mulheres no futebol brasileiro: de reconhecimento, torcida e prêmios, mas com ainda existente hiper sexualização feminina.

É importante ressaltar nessa retrospectiva sobre a participação feminina no futebol brasileiro os avanços da modalidade, que, ano a ano, aumenta seu espaço na sociedade, seja no âmbito do reconhecimento da seleção nacional, na valorização das atletas, na ampliação do público e no aumento do número de mulheres praticantes de futebol por todo o país.

O grande efeito de uma reflexão como esta, ainda mais em um ano que nos forneceu tantos vieses, é analisar a importância da luta das mulheres pelo espaço como praticantes e amantes do esporte. São muitos os reforços positivos que surgem em pequenas ações e acabam transformando este cenário: os espaços conquistados pelas mulheres na categoria profissional, os esforços para serem praticantes ativas de lazeres esportivos, a luta para quebrarem paradigmas e invadirem espaços que são considerados hegemonicamente masculinos. Ainda, é importante pensar no quanto as ações negativas são alvos de críticas e exigências de pedidos de desculpas, como a infeliz manchete do jornal.

Dado que o fenômeno do futebol vai muito além dos gramados, sabemos que os avanços da modalidade são processuais e lentos, e que o estabelecimento de uma modalidade melhor para todas passa por diversos âmbitos sociais. Mas, acreditamos que o empoderamento das mulheres e a discussão sobre as questões de gênero são um caminho interessante para conseguirmos dar um passo de cada vez.