Leminski – Um poeta no Judô

Arquivo familiar
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Qualquer hesitação, seja diante de um golpe ou de um poema, pode ser fatal. A conclusão é de quem se aventurou com êxito diante de duas artes, as marciais e a literária: o poeta paranaense Paulo Leminski, morto em 1989, considerado um dos maiores nomes e enigmas da literatura brasileira. Se muito se estuda sobre o que escreveu o poeta curitibano, pouco se fala de sua faceta nos tatames: Em meados dos anos 1960, dedicou-se com afinco ao judô, graduando-se sho-dan (faixa preta) e competido campeonatos nacionais pela seleção paranaense.

A dissociação do poeta e do judoca é um recorte que a memória coletiva tratou de fazer: os dois são facetas de um mesmo Paulo, complementares, o esporte influenciando a produção cultural do autor. Em O Bandido que Sabia Latim, biografia sobre o Leminski escrita por Toninho Vaz, consta que ao mesmo tempo em que se exercitava com disposição no tatame, Leminski “fazia descer das prateleiras livros e mais livros de poesia oriental, hai-kais, biografias e até uma bíblia escrita em japonês – roubada dosarquivos da Biblioteca Pública. Pôs-se a ler com voracidade Alan Watts, Teitaro Suzuki e Thomas Merton, todos estudiosos do zen-budismo, o lado transcendental da filosofia budista. […] Para ele, o judô, em sim, já era um esporte intelectual e ‘Mens sana in corpore sano’”.

 

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O começo no tatame – A prática do judô para Paulo Leminski começou por volta de 1965, quando tinha mais ou menos 21 anos, levado pelo irmão, Pedro, que vinha recebendo aulas na sede curitibana do tradicional centro de treinamento Kodokan – a primeira foi criada por Jigoro Kano, no Japão, responsável por sistematizar as técnicas de luta que resultaram no judô – em que o sensei (professor) era o italiano recém-chegado de Turim, Aldo Lubes.

O próprio Paulo Leminski registrou parte da história da Kodokan na capital paranaense, em um texto para homenagear seu mestre: conta que a primeira sede curitibana foi dirigida por um sensei Kamada, ex-oficial do exército imperial japonês, 5º Dan em judô e especialista em kendô, sucessor de sensei Oguino, que tinha uma pensão para estudantes de famílias de descendentes de japoneses. Kamada voltou para o Japão com o dinheiro da venda de sua espada de samurai, não sem antes deixar uma seara de discípulos: MakotoYamanouchi, KenjiroHironaka, SenseiAltevir,SenseiHayashi, Sensei Prestes e, entre eles, Aldo Lubes.

O Leminski judoca – “O Paulo só tomava leite, treinava muito, não fumava, um atleta, um exemplo”, recorda o professor de judô Aldo Lubes. Aos 76 anos, o mestre se recorda da dedicação do ex-aluno que se tornou célebre por seu trabalho na literatura, onde seu sobrenome é quase sinônimo de poesia: Leminski.

Mas, subia no tatame da academia Kodokan, em Curitiba, no final da década de 1960, era somente “o Paulo” – antes de se tornar o artista boêmio, que morreu aos 44 anos. “Lembro-me bem da seriedade do Paulo Leminski quando treinava. Acontecia algumas vezes em competições do Paulo Leminski lutar contra o Paulo Micoski [judoca de destaque da seleção paranaense]; o pessoal chamava isso de ‘uma luta dos polacos’”, lembra um judoca contemporâneo ao poeta.

Os versos do judoca poeta –O gosto pelo esporte nascido da arte marcial japonesa aparece em alguns de seus versos, como estes, registrados em um guardanapo: “Pratico judô/ o tempo todo/ pratico andando/ pratico sentado/ pratico andando/ no meio da multidão/ pratico olhando/ para teus pés/ p/ ver onde/ está/ o centro do teu/ equilíbrio”.

Ou em neste poema-homenagem intitulado ”Tai-Otoshi para a Kodokan”: “passos lentos/ escrevem/ VONTADE DE CHEGAR // preciso andar/ como quem já chegou // chega de chegar // depressa / é muito devagar”.

Mais do que uma aventura para complementar seu gosto pelas coisas do Oriente, o judô era levado a sério pelo jovem Leminski. “Era um perfeccionista, ajustava cada golpe tanto quanto a gramática”, relembra Lubes, que treinou o poeta na academia sediada no prédio da Galeria Garcez, na Boca Maldita, entre 1965 e 1970.

Em 1967, o Paulo de 23 anos integrou a seleção paranaense que disputou o Campeonato Brasileiro de Judô, no Rio de Janeiro, em uma das oportunidades que teve de competir ao lado do londrinense Liogi Suzuki, por quem nutria admiração. “Nessa época, o Paraná foi uma potência brasileira em matéria de judô, somando a força do Norte, onde, em Londrina, despontou o extraordinário Suzuki, o mais fantástico judoca que eu já vi em ação”, registrou Leminski.

“Lembro-me dele [Leminski] com a faixa verde, era muito zen, muito estudioso a respeito dos ensinamentos do judô. Naquele Brasileiro, ele aprontou uma: quando foi chamado para a primeira luta, à beira do tatame soltou um kiai [termo designa a exteriorização da energia corporal, muitas vezes expressada em um grito] que deixou todo mundo no ginásio atônito”, diverte-se o vice-campeão mundial universitário de 1968, Suzuki, hoje aos 73 anos.

O esporte também era levado para casa. Leminski tinha o hábito de amarrar a faixa preta na maçaneta da porta de casa para treinar as entradas dos golpes. Seu forte era uma técnica de quadril, o harai-goshi. Estimulou os filhos, Miguel, Aurea e a temporã Estrela a praticarem, deu aulas para crianças. “Na nossa casa, todos praticávamos. Era quase um código de honra ser judoca”, conta a mulher de Leminski, a poeta Alice Ruiz.

 

Reprodução / Livro Caprichos & Relaxos
Reprodução / Livro Caprichos & Relaxos

Do ponto de vista intelectual, destaca o livro de Toninho Vaz, o judô teve influência direta na produção poética de Leminski: “conhecendo os princípios filosóficos das lutas marciais, que lhe foram apresentados através da ‘grande aventura dos samurais’, e decodificando a linguagem totêmica, os ideogramas do idioma japonês. Ficou fascinado pelo poder de síntese dos ícones. Costumava dizer que o judô foi importante para sua poesia na medida em que lhe ensinou confiar na intuição”, registrou na biografia.