Opinião: Por que eu admiro Ronda Rousey

Foto: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal

“A girl can do what she wants to do, and that’s what I’m gonna do”. Traduzindo para o português, “uma garota pode fazer o que ela quiser, e é isso o que eu vou fazer”. Esse é um dos versos da música Bad Reputation, da cantora americana Joan Jett. A mesma música que toca quando apagam-se as luzes do ginásio e os holofotes iluminam apenas uma Ronda Rousey concentrada na sua caminhada do vestiário até o octógono.

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Todo lutador do UFC entra no octógono com uma música. Alguns variam a escolha de evento para evento. Outros, como Ronda, já adotaram uma como sua marca registrada. Porém, talvez nenhum tenha tanta identificação com sua música de entrada como a ex-campeã dos galos tem com a frase que abre esse texto. Ronda Rousey faz o que ela quer.

Em 2011, o presidente do UFC Dana White afirmou que a entidade jamais promoveria lutas femininas. Dois meses depois, a Zuffa – empresa que até então era majoritária das ações do UFC – comprou o Strikeforce, o segundo evento mais importante de MMA do mundo naquela época. A incorporação dos atletas do Strikeforce ao Ultimate era uma questão de tempo. Porém, havia um detalhe interessante: o evento tinha uma categoria feminina. E nela, tinha uma lutadora que começava a ganhar os holofotes. Uma ex-judoca, medalhista olímpica, que vinha derrotando todas as suas adversárias sempre da mesma forma: por chave de braço no primeiro round. Em 2012, Ronda Rousey se tornava a campeã do Strikeforce. Em 2013, Ronda Rousey entrava no octógono do UFC para protagonizar a primeira luta feminina da história da organização, contra Liz Carmouche. Rowdy ganhava sua principal luta.

“Ronda Rousey é o tipo de pessoa que muda as condições do jogo. (…) Poucos meses após a entrevista, tivemos um evento em Las Vegas e alguém me chamava pelo nome. Era Ronda Rousey. Eu tinha ouvido falar nela; tinham me dito que era uma boa lutadora. Aproximei-me, apertei sua mão e ela disse: ‘Eu vou lutar para você um dia e vou ser sua primeira campeã mundial’ (…) Eu não imagino nada que ela não possa fazer” – Dana White no prefácio da biografia de Ronda Rousey

Ano passado, Ronda veio ao Rio de Janeiro para lutar contra a brasileira Bethe Correia no UFC 190. Trabalhando no time de assessoria de imprensa do UFC, comecei a pesquisar a fundo a vida da americana. A partir daí, deixei de vê-la só como uma lutadora fenomenal e passei a idolatrá-la, a ponto de ter sido a única lutadora do card com quem eu fiz questão de tirar foto, apesar de haver outros lutadores ali que admirava há muito tempo, como Maurício Shogun e Rodrigo Minotauro.

Desde pequeno, sempre estive muito ligado a artes marciais. Na minha infância, fiz judô por quatro anos. De lá, migrei pro jiu-jitsu. E treinava com minha mãe. Nos finais de semana, fazíamos nossa academia em casa: colocávamos os colchões no chão e treinávamos. A mãe de Ronda, AnnMaria De Mars foi a primeira judoca americana (entre homens e mulheres) a ser campeã mundial. Ronda costuma contar que sua mãe lhe dava golpes de surpresa em casa, como forma de treinamento.

Na quinta-feira antes do UFC 190, dia em que os atletas do card estavam atendendo à imprensa, encontrei com Ronda Rousey na sala de imprensa. Após todos os compromissos da então campeã, pedi a ela para tirarmos uma foto. Ao mesmo tempo, o staff do lutador argentino Guido Cannetti também pediu. Ficamos naquele “vai você… não, vai você primeiro”. Ronda olhou para a gente, deu um sorriso e falou: “vamos lá meninos, não precisam ficar com medo de mim!”. Depois que eu tirei minha foto, agradeci e a desejei boa luta. Ela pediu pra ver como tinha ficado a foto. “Ficou contra a luz, muita sombra, não gostei. Vamos tirar outra ali”, ela decretou. Tiramos mais algumas fotos. “Muito melhor agora!”, disse ela depois que viu as novas imagens.

Alguns meses depois, ela viria a sofrer sua primeira derrota no MMA e perdeu o cinturão para Holly Holm. Quando bebê, Ronda teve que lutar pela vida, depois de nascer com o cordão umbilical enrolado em seu pescoço e ter “morrido” por alguns minutos. Como consequência, quando criança, teve que lutar para conseguir falar. Ronda só foi conseguir começar a construir frases aos seis anos de idade. Ainda criança, teve que superar a morte do pai, que se suicidou por não conseguir suportar as dores na coluna e a iminência de perder os movimentos das pernas e dos braços, em decorrência de um acidente que quebrou suas vértebras. Antes de conquistar uma medalha olímpica, Ronda superou inúmeras lesões. Se tornou uma referência na luta de solo durante a recuperação de uma ruptura do ligamento cruzado do joelho. Ronda superou a depressão e encontrou na transição do judô para o MMA o motivo de seguir vivendo. Ronda superou toda a desconfiança em relação às mulheres não apenas nas lutas, mas no mundo em geral. Dia 30 de dezembro, Ronda enfrenta Amanda Nunes no UFC 207, para tentar recuperar o cinturão. Será mais uma história de superação em sua vida. E é por isso que eu admiro Ronda Rousey.